História
A origem do Restaurante “As Velhas” remonta aos primórdios da República, altura em que velhas senhoras da província ali cozinhavam e serviam almoços, jantares e ceias. Durante as primeiras décadas do século passado, esta casa de pasto elaborou comida à portuguesa no melhor apuro.
As senhoras velhas cederam a gerência em 1940 a um famoso lutador de origem alfacinha, que com a sua companheira francesa refinaram a locanda e lhe deram o nome “Casa das Velhas”, projectando a idade das cozinheiras numa identidade comercial.
Tanto o nome como a qualidade dos repastos foram continuados com os novos donos de Pampilhosa da Serra que a partir de 1961 abraçaram o negócio e serviram a freguesia num ambiente familiar.
Em 1982 a casa passou para as mãos de José da Silva Gonçalves, proveniente da aldeia minhota de Mire de Tibães, que reformou o espaço e o adornou com gravuras alusivas à época da sua fundação. Desde então tem procurado que o Restaurante “As Velhas” mantenha a tradição de bem representar a excelência da cozinha portuguesa.
Toponímia da Área Envolvente
O Restaurante As Velhas está localizado na Rua da Conceição da Gloria (antiga Rua da Conceição), artéria situada na colina de S. Roque, encosta de S. Pedro de Alcântara.
Calçada da Glória (antiga Calçada de S. Roque)
É um topónimo de fixação antiga na memória da cidade, anterior ao Terramoto de 1755, pois no levantamento «Descripção corographica das parrochias da cidade de lisboa com os lemites, ruas, becos e traveças, q’cada hua dellas tinha antes do terramoto do 1º de novembro de 1755; e também com o numero de fogos, q’ nellas existião» ela consta como uma artéria da «Fregª de S. Joze».
O topónimo advém da Ermida de Nossa Senhora da Glória que se situava na Rua da Glória, fundada em 1574 por Fernão Pais. Cerca de 1626, aí se estabeleceram os Padres Irlandeses, do Seminário fundado em 1593. Em 1755, era seu proprietário D. Luís de Portugal da Gama, 2º Conde da Vidigueira.
Rua da Glória (antiga Rua de Nossa Senhora da Glória)
Nesta rua estavam situadas, a ermida de Nossa Senhora da Glória, fundada em 1574 por Fernão Pais, e a capela de Nossa Senhora da Pureza do Amor de Deus, fundada em 1581 por Manuel de Castro, solicitador dos órfãos e sua mulher. A ermida e a capela localizavam-se na esquina da Calçada da Glória com a Rua da Glória.
Praça da Alegria
Sobre a origem do topónimo escreveu o olisipógrafo Norberto de Araújo («Peregrinações em Lisboa», vol. XIV), no início do século XX, o seguinte:
«Ora vamos ver - a Alegria, sítio a-par da velha Cotovia de Baixo (a Cotovia de Cima, ou simplesmente a “Cotovia” era a actual Praça do Rio de Janeiro [actual Praça do Príncipe Real], em prolongamento até o sítio do Rato). (…) Repizo que na primeira metade do século XVIII tudo por aqui eram terrenos de cultivo, abaixo da quinta ou da cêrca dos Padres da Companhia (Jardim Botânico de hoje), ligados a S. José, razão porque esta zona arrabaldina se chamou também Cotovia de S. José. (Para se entender isto melhor é preciso fechar os olhos, e não ver a Avenida actual). Ao Terramoto, que atraiu as populações para áreas descampadas ou mal povoadas, se deve a criação do bairro. A razão porque se chama “da Alegria” não a sei, nem creio que alguém a conheça. Matos Sequeira [refere-se ao olisipógrafo Gustavo de Matos Sequeira], que muito estudou (não se limitou a apontar) estes sítios, não nos diz algo; conjectura. Por o local ser ameno, lavado de ares, ridente por natureza? Eu lembro que as designações de sítios partiam quási sempre de lindas invocações religiosas, tal a “Glória”, a “Estrêla”. Ora eu adquiri, há anos, uma velha imagem de N. Srª da Alegria, e que bem pode corresponder a uma invocação pessoal, caprichosa, pois “Alegria” não consta dos oragos de qualquer região do país. Mas também pode suceder que a poética religiosa se comprazesse numa invocação, que não chegou até nós em documento vivo. A Alegria, pois, é posterior ao Terramoto; (…) Com a construção e desenvolvimento do Passeio Público, cresceu a Alegria; com a abertura da Avenida tornou-se de maioridade».
Sobre a Praça da Alegria diz ainda Norberto Araújo «Os prédios por aqui datam, os mais antigos, do princípio do século passado, ou da agonia do século XVIII, e a maioria dêles são de 1840 -1850. Quanto ao pequeno Jardim - desde há poucos anos intitulado “Jardim de Alfredo Keil” - foi começado a plantar cêrca de 1881. (…) Cabe aqui dizer-te, ou lembrar-te, que um tempo houve - ainda isto por aqui mal povoado andava (em 1778 havia apenas oito prédios formais de feição pombalina) - em que êste largo ou praça se chamou “do Suplício” . Uma certa Dona, Izabel Xavier Clesse, alem de atraiçoar seu marido, o mareante Tomaz Goilão, lembrou-se de - o envenenar. Foi neste local enforcada em 31 de Março de 1771. O povo durante três anos designou a Praça pelo sucesso que a infamara; depois, esqueceu-se.»
Norberto Araújo recorda ainda como memória deste sítio a realização da Feira da Alegria:
«A Feira da Alegria, sequencia tradicional da Feira da Ladra que já se fazia no comêço do séc. XIII, um dia por semana, no Chão da Feira, ao Castelo, e que antes do Terramoto se efectuava no Rossio - , já se realizava em 1773 na Cotovia de Baixo (êste sítio da Alegria); em 1809 foi confirmada na Alegria, estendendo-se pela Rua Ocidental do Passeio até aos Restauradores de hoje, e, por abuso, até ao Palácio Cadaval (Estação do Rossio). Em 1823 ordenou-se a sua transferência para o Campo de Sant’Ana, onde esteve apenas cinco meses voltando para aqui; em Maio de 1835 foi definitivamente arredada desta zona para o Campo de Sant’Ana, onde se conservou até 1882. De então para cá sobrevive no Campo de Santa Clara, às terças, e, desde Novembro de 1903, aos sábados também.».
Avenida da Liberdade
Avenida que partindo do antigo Passeio Público, termina numa praça circular (Praça Marquês de Pombal), incluindo os troços das Ruas Oriental e Ocidental do Passeio, desde a Praça dos Restauradores até a Praça da Alegria.
A Avenida da Liberdade nasceu por iniciativa municipal, aberta e rasgada com expropriações e demolições, marcando a primeira e mais controversa fase do plano de extensão de Lisboa, de crescimento urbano para norte, delineado no último quartel do XIX.
Ela era o grande sonho de José Gregório Rosa Araújo (1840-1893),então presidente da Câmara, que defendia a abertura de um largo boulevard ou Avenida em Lisboa, o que veio a ver concretizada em 1879-1886, tendo para isso de destruir o famoso Passeio Público, que era até então considerado o mais elegante jardim da cidade.
A luta na Câmara foi renhida mas as obras de demolição começaram em 24.07.1879 e nos últimos dias de 1882 as grades do Passeio Público começaram a ser arrancadas. O projecto desta Avenida da Liberdade, aprovado entre 1877 e 1879 pela Câmara Municipal de Lisboa, retomou propostas urbanísticas anteriores que conceberam a Avenida como prolongamento do Passeio Público, mas com limite na futura Rotunda do Marquês de Pombal.
O Passeio Público constituiu assim, a primeira pedra da Avenida da Liberdade, no sentido em que lhe apontou a direcção e virá a configurar planos que são os do primeiro troço da avenida oitocentista até à Rua das Pretas. Mais tarde, a cidade verá necessidade de proceder à urbanização do vale delimitado pelas encostas de S. Pedro de Alcântara e de Santana, associado ao tema do boulevard à francesa, o referencial comum dos planos de extensão das cidades europeias de oitocentos.
A Avenida da Liberdade, com 90 metros de largura e 1273 de comprimento, foi inaugurada em 1886, no mesmo ano em que as ruas Barata Salgueiro e Castilho foram calcetadas e iluminadas. No dia 25 de Maio de 1886, em que se casou o futuro rei D. Carlos, a Avenida foi o palco de um grande desfile com Infantaria e Cavalaria, para o príncipe mostrar à sua noiva uma cidade moderna e para Rosa Araújo ver o seu sonho concretizado.
Em 12 de Abril do ano seguinte, o próprio Rosa Araújo viria a ficar consagrado numa rua perpendicular à Avenida: a Rua Rosa Araújo.
Ainda no final da década de 80 oitocentista, nos nºs 40 a 48 da Avenida da Liberdade inaugurou-se mais uma confeitaria do pai de Rosa Araújo, célebre pelos seus cocós, uns pastéis de ovos de fino folhado. Era lá o local de encontro e ceia de políticos, actores e outros artistas.
No princípio do séc. XX, este novo boulevard que herdara algumas árvores e estatuária do passeio Público, era já palco de passeios de domingo da burguesia lisboeta e a área escolhida para edifícios de prestigiados arquitectos. Em 1922, instalou-se o Hotel Tivoli, traçado por Norte Júnior e, dois anos depois foi a vez do Cinema Tivoli, de Raul Lino. Em 1 de Julho de 1936, inaugurou-se o Hotel Vitória, da autoria de Cassiano Branco, o arquitecto do Éden Teatro. Quatro anos mais tarde, em 24 de Setembro de 1940, foi o jornal Diário de Notícias que se mudou das suas instalações no Bairro Alto para o alto da Avenida da Liberdade, sob um traçado do Arqº Pardal Monteiro.
In Arquivo Municipal de Lisboa
A evolução da Avenida da Liberdade
A Avenida da Liberdade foi construída nos finais do Século XIX sobre parte do antigo “Passeio Público”.
A sua extensão viria a ser bem maior que a daquele, indo ao encontro de um novo parque, no topo, cuja construção visava compensar a “perda” do parque público (o Parque da Liberdade, que mais tarde daria lugar ao Parque Eduardo VII).
A Sul, foi construída a Praça dos Restauradores, consagrada à “liberdade” de Portugal face a Espanha, reconquistada (restaurada) em 1640. Em conformidade, a nova avenida recebeu precisamente o nome de “Liberdade”. E assim se esclarece um equívoco (embora não muito frequente) pelo qual se atribui à Revolução de 1974 a responsabilidade pelo novo nome, supostamente em substituição de um outro. Sempre foi “Avenida da Liberdade” (desde que é avenida), mesmo quando a liberdade, nalguma outra ocasião, se viu ameaçada (em bom rigor, o espírito será o da “Independência”).
Recuando de novo no tempo, cumpre recordar que a origem do Passeio Público remonta à época da reconstrução pós-terramoto (1755). Ao tempo do terramoto já existiam na zona algumas construções (sobretudo palácios e palacetes) e primitivos arruamentos, concentrados no que é hoje a parte a Sul. O mais eram hortas e “mata cerrada”, até porque terminava ali o perímetro das antigas muralhas da cidade (cerca Fernandina). Desta forma, no Século XVI e em anteriores, a zona era totalmente “campestre”.
Por sua vez, a fertilidade dos campos e a própria topografia (em forma de vale suave) encontram explicação na existência de uma antiga ribeira, a de “Valverde” (ou de Sto. Antão), que seguia em boa parte o traçado da actual avenida e se juntava a uma outra ribeira (de Arroios) mais abaixo, desaguando ambas num esteiro do Tejo. Em bom rigor, quer as duas ribeiras quer o esteiro ainda hoje existem… mas no subsolo. As duas ribeiras, encanadas, enquanto o esteiro banha as estacarias de muitos edifícios da Baixa.
No entanto, desde o tempo dos romanos até aos primeiros tempos de Lisboa como capital do Reino de Portugal foram sendo “conquistadas” aquelas terras, de forma progressiva. Enquanto alagadas, eram aproveitadas para o cultivo.
Voltando à evolução da Avenida da Liberdade, foi concebida como artéria de grande circulação, o que entristeceu muitos lisboetas, saudosos do prazenteiro Passeio Público. E, em pouco tempo, o tráfico de barulhentas carruagens começou a dar lugar aos primeiros automóveis - ainda mais barulhentos e ainda mais “endiabrados” para com o sossego dos peões.
Como “refúgio”, ainda foram construídas alamedas no meio da avenida, arborizadas, mas que ficavam muito aquém do conceito de “parque”. Com o correr dos tempos - e o alargamento das vias rodoviárias - a Avenida tornou-se cada vez menos cativante para o passeio dos alfacinhas.
Como cópia dos “boulevards” parisienses, porém, a Avenida da Liberdade não perdeu interesse. Surgiram edifícios de traça “moderna”, alegre e elaborada, contrastando com a sobriedade dos edifícios “pombalinos”. Como veremos adiante, a Avenida da Liberdade foi durante algumas décadas uma “montra” privilegiada para os mais arrojados arquitectos, qual “ex-libris” de um novo urbanismo de Lisboa.
Durante o tempo do Estado Novo surgiram novas edificações, deveras interessantes em si (como o edifício do Diário de Notícias, o Hotel Vitória ou o Cinema São Jorge), embora nem sempre em harmonia com o conjunto.
No lugar da antiga Rotunda foi construída a Praça Marquês de Pombal, que reforçou a fluidez de comunicação da Avenida com o resto da cidade. Para ali se deslocou em definitivo o “centro” de Lisboa.
Também nesta época foi “reforçada” significativamente a estatuária da Avenida, como veremos adiante.
Mas se a harmonia arquitectónica poderia ser posta em causa, veio a sê-lo com gravidade nas décadas seguintes… e em boa medida até hoje. De ambos os lados da avenida é difícil encontrar um quarteirão onde não existam aberrações…
Já para não falar nos tempos difíceis por que passaram (e ainda passam) alguns dos mais emblemáticos edifícios, sujeitos ao abandono, à descaracterização quase completa das suas traças ou ainda, a degradação.
Há honrosas excepções, recentes, embora não isentas de polémica.
Em seguida vejamos com maior pormenor o que existe na Avenida da Liberdade.
A Avenida tem cerca de 1.000 metros de comprimento, com início na Praça dos Restauradores, terminando na Praça Marquês de Pombal. Atravessa duas freguesias, a de S. José (a Sul) e a de Coração de Jesus (a Norte). As Ruas do Salitre e de Manuel Jesus Coelho marcam a altura de fronteira.
A Avenida é servida pelo Metropolitano em três pontos: Restauradores (a Sul), Estação da Avenida (a meio) e Estação do Marquês de Pombal/Rotunda (a Norte).
Cruzam ou desembocam na Avenida os seguintes arruamentos (do início para o final):
- Junto aos Restauradores, terminam a Calçada da Glória, a Oeste, e a Rua dos Condes, a Leste;
- O Largo da Anunciada comunica com a Avenida a Leste. A respectiva rua atravessa a Avenida, embora sem comunicação a Oeste;
- Seguem-se a Travessa da Glória e a Rua da Conceição da Glória, a Oeste;
Casa onde viveu Almeida Garrett
(Travessa da Conceição da Glória - 1955)
- Acima estão a rua de acesso à Praça da Alegria, a Oeste, e a Rua das Pretas, a Leste. Comunicam entre si cruzando a Avenida;
- Depois, a Oeste, unem-se em nome e no terreno a Travessa e a Rua do Salitre;
- Seguem-se a Travessa da Horta da Cera e a Rua Manuel de Jesus Coelho, que também comunicam entre si cruzando a Avenida;
- Na zona mais moderna (boa parte dos arruamentos referidos acima são bem antigos, como atestam os nomes) surgem, por fim, grandes ruas que atravessam a Avenida de lado a lado. Primeiro a Rua Barata Salgueiro, depois a Rua Alexandre Herculano.
Da estatuária da Avenida da Liberdade consta (do início para o final):
- Busto de Manuel Pinheiro Chagas, escritor, da autoria de Costa Mota e inaugurado em 1908;
- Estátuas e lagos em alegoria aos rios Tejo e Douro, “sobreviventes” da estatuária inicial do Passeio Público, da autoria de Alexandre Gomes;
- Estátua de Simon Bolívar, herói independentista da América Latina, da autoria de Arturo Aguilero e inaugurada em 1978. Foi oferecida por emigrantes portugueses na Venezuela;
- Monumento aos Mortos da Grande Guerra / Combatentes, da autoria de Maximiano Alves e Guilherme Rebello de Andrade, inaugurado em 1931;
- Busto de Rosa Araújo, urbanista (incluindo da própria Avenida), inaugurado em 1936;
- Conjunto das estátuas de António Feliciano de Castilho, Oliveira Martins, Almeida Garrett e Alexandre Herculano, inaugurado em 1952. As duas primeiras foram da autoria de Leopoldo de Almeida e as duas outras, de Barata Feyo.
Na Avenida da Liberdade, são Imóveis de Interesse Público:
- Hotel Vitória (1934/36), de Cassiano Branco, hoje sede do Partido Comunista Português;
- Pensão Tivoli - Hotel Liz (1925), de Manuel Joaquim Norte Júnior, vencedor do Prémio Valmor de 1925, hoje conserva-se apenas a fachada, integrada no Hotel NH Liberdade;
- Tivoli Cine Teatro (1924), de Raul Lino;
- Edifício do Diário de Notícias (1940), de Pardal Monteiro (onde se podem ver frescos de Almada Negreiros);
Em vias de classificação (ao que apurámos) estão os seguintes edifícios:
- Instituto Camões-Casa da Lusofonia/Palacete Seixas;
- Dois edifícios de habitação (entre os quais a Casa Lambertini), com menções honrosas Valmor de 1904;
- Edificios de habitação geminados, Prémio Valmor de 1915;
- Arquivo Histórico do Ministério do Equipamento, Planeamento e Administração do Território;
- Cinema São Jorge, Prémio Municipal de Arquitectura em 1950;
- Palácio Lima Mayer, Prémio Valmor de 1902 (o primeiro);
- Palladium (junto ao Elevador da Glória);
- Cinema Condes.
Mais recentemente, receberam os Prémios Valmor os seguintes edifícios:
- Sede do Lloyd’s Bank (1988);
- Edifício Vitoria - Vitoria Seguros (1998).





